Entre desafios e oportunidades, a sucessão patrimonial tornou-se um tema central no debate sobre o futuro financeiro de famílias e empresas brasileiras. A perspectiva de transferir US$ 9 trilhões nas próximas décadas coloca o Brasil na vanguarda de uma das maiores movimentações intergeracionais de riqueza já registradas. Em meio a esse cenário, entender as dinâmicas, os riscos e as soluções disponíveis torna-se fundamental para garantir que o legado seja preservado de maneira eficiente e sustentável.
O fenômeno da sucessão patrimonial no Brasil
No ranking global, o Brasil ocupa posição de destaque, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da China em volume de herança programada. Estima-se que três gerações de descendentes ativos receberão ativos de pais e avós, num montante que supera até mesmo o previsto para muitas potências emergentes. Esse movimento é impulsionado pelo envelhecimento populacional e pelo crescimento da classe de milionários no país.
Segundo projeções, o número de brasileiros com patrimônio superior a US$ 1 milhão chegará a 463.797 até 2028, refletindo um cenário de expansão da riqueza concentrada. Entretanto, a desigualdade persiste elevada, com o Índice de Gini atingindo 0,82, o que reforça a necessidade de políticas e práticas de planejamento que incentivem uma distribuição mais equilibrada de ativos.
Desafios culturais e educação financeira
Um dos principais entraves ao planejamento sucessório no Brasil é a baixa alfabetização financeira. A maior parte da população apresenta dificuldades em compreender conceitos básicos de investimento, tributação e organização de patrimônio. Sem uma base sólida de conhecimento, muitas famílias deixam de adotar cultura de planejamento patrimonial sólido, expondo-se a riscos e incertezas futuras.
Além disso, a resistência cultural em discutir herança e morte agrava o problema. Muitos percebem o tema como tabu, o que gera procrastinação e falta de formalização de documentos essenciais, como testamentos e acordos familiares. O resultado é um cenário em que ativos ficam pulverizados e processos judiciais tornam-se inevitáveis.
Consequências da ausência de planejamento
Quando não há um direcionamento claro para a sucessão de bens, famílias e empresas arcam com custos significativos. Estima-se que entre 10% e 20% do patrimônio possa ser perdido durante o processo de transmissão, devido a tributos, honorários e gastos cartoriais.
- ITCMD de 4% a 8% conforme o estado;
- Honorários advocatícios e custas judiciais;
- Gastos com inventário e registros públicos;
- Litígios familiares prolongados.
Esses cenários podem gerar desgastes emocionais e disputas internas, colocando em risco não apenas o valor financeiro, mas a harmonia entre herdeiros e a continuidade de negócios.
Empresas familiares: legado e sobrevivência
No Brasil, empresas familiares representam cerca de 90% dos negócios, respondendo por 65% do PIB e 75% dos empregos formais. Apesar dessa relevância, menos de 30% chegam à segunda geração, e apenas 3% sobrevivem até a quarta. A falta de governança e o despreparo sucessório são apontados como os principais fatores de mortalidade precoce dessas empresas.
Investir em estruturas de governança familiar e em programas de capacitação para herdeiros é essencial para reverter esse quadro, garantindo a transmissão sem perdas significativas de negócios e valores.
O advento dos bens digitais e novas fronteiras
Com o reconhecimento, em 2025, de procedimentos específicos para a sucessão de bens digitais, abre-se um novo capítulo no planejamento patrimonial. Perfis em redes sociais, criptomoedas e contratos digitais somam-se ao patrimônio tradicional, exigindo atenção diferenciada.
Em média, cada indivíduo possui 6,83 perfis online, mas menos de 5% incluem orientações sobre o destino desses ativos em vida ou em testamento. A falta de um protocolo claro pode resultar em bloqueios de contas, perda de conteúdos valiosos e até mesmo em litígios complexos.
Preparando as próximas gerações para o legado
As gerações Y e Z estão prestes a herdar globalmente US$ 84 trilhões até 2045. No Brasil, o desafio é capacitá-las não apenas a receber, mas a gerir com responsabilidade e visão de longo prazo. Fortalecer habilidades de liderança, governança e tomada de decisão torna-se imperativo.
- Promover educação financeira desde cedo;
- Incluir jovens em reuniões de planejamento;
- Estabelecer acordos de sócios e testamentos familiares;
- Estimular a diversificação de investimentos.
Essas práticas garantem que os herdeiros estejam preparados para honrar o legado e administrar os ativos com prudência.
Instrumentos e soluções para uma sucessão eficiente
Para mitigar custos e incertezas, é recomendável adotar instrumentos jurídicos e financeiros adequados. Realizar parte da sucessão ainda em vida, por meio de doações com reserva de usufruto ou criação de holdings familiares, sobrecarrega menos o inventário post mortem.
- Testamento público ou cerrado;
- Seguro de vida com cláusula de beneficiários;
- Doação em vida com cláusula de reversão;
- Criação de ambiente jurídico e fiscal complexo simplificado;
- Diversificação de ativos no exterior.
Essas ferramentas criam um ambiente de transmissão estruturado, reduzindo riscos fiscais e burocráticos.
Conclusão: perpetuando o patrimônio e honrando o legado
Enfrentar o tema da sucessão patrimonial com proatividade é um ato de amor e responsabilidade. Ao adotar um planejamento estruturado, as famílias e empresas brasileiras podem evitar perdas financeiras e conflitos, garantindo que o patrimônio seja frutífero para as próximas gerações.
Empresas familiares fortalecidas, herdeiros conscientes e um conjunto de instrumentos jurídicos bem definidos são a base para um legado duradouro. Não deixe para amanhã: comece hoje a construir as pontes que conectarão o passado ao futuro com segurança e harmonia.